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Avaliação clínica da suspensão

  • 08
  • MAR
Avaliação clínica da suspensão

Durante o exame clínico sistemático do sistema locomotor, e muito importante respeitar os conceitos de inspeção estática, antes da inspeção em movimento; sabemos que são muito importantes irregularidades como efusão, desvios, aprumos, aumentos de volume, atrofias musculares e etc. Mas é comum esquecer ou não avaliar a suspensão dos membros. Só o fato de inserir a observação da suspensão no exame clínico desde a inspeção estática no cavalo claudicante, poderia nos convidar a começar uma lista de diagnósticos diferenciais e/ou nos guiar por onde pesquisar a causa da claudicação.

Mas qual e a suspensão normal, o que avaliar e como avalia-la?

A suspensão dos membros é examinada de duas formas simultaneamente: a) pela comparação da altura do boleto entre os membros (esquerdo e direito) e b) pela relação na angulação do casco com a quartela (figuras 1 e 2). Vejam que a angulação do casco: quartela para o membro torácico normal deve ser zero (figura 1), enquanto para o membro pélvico deve ser negativa (figura 2). Para o membro torácico, uma angulação negativa predispõe a um alto índice de estresse nas estruturas palmares do casco (flexor digital profundo e aparelho podotroclear), mas já parar o membro pélvico esta angulação e totalmente normal; é por isso que não é comum a síndrome do navicular no membro pélvico. Para o membro pélvico, uma angulação “zero” ou totalmente linear, pode ser uma angulação suspeita onde as estruturas de suspensão possam estar alteradas ou predispostas a serem sobrecarregadas na dinâmica do movimento. Em ambos os membros, o boleto baixo com uma angulação casco: quartela positiva, e um sinal de alarme para saber que esse cavalo tem um problema sério na suspensão (figura 1 e 2), com grande possibilidade de que a causa da claudicação possa ser por lesão de uma ou várias das estruturas que trabalham para manter dita suspensão.


          

FIGURA 1                                                                                                            FIGURA 2

A suspensão, avalia principalmente a integridade de três estruturas fundamentais: 1) O flexor digital superficial, 2) o flexor digital profundo e 3) o ligamento suspensório do boleto. Aqui começa o exame clínico específico, onde é necessário avaliar uma mudança estrutural que cada uma destas regiões pode ter desde a origem até a sua inserção. Além disso, devemos levar em consideração que a origem e inserção de todas as estruturas que participam na suspensão, não são iguais para o membro torácico e para o membro pélvico.

Durante o exame clínico, é muito importante respeitar a biomecânica da suspensão; para ela ser corretamente avaliada, os membros torácicos esquerdo e direito ou pélvico esquerdo e direito, devem estar totalmente paralelos, para poder evitar interferências na sua interpretação. Como se observa na foto 1,  o membro pélvico esquerdo tem o boleto mais baixo e com um a angulação casco : quartela positiva em comparação do membro contralateral, que tem um boleto mais alto e com uma angulação casco : quartela negativa. Isto não quer dizer que ele tenha alteração da suspensão do membro pélvico esquerdo e sim que ele está mal posicionado. Esta mesma avaliação, deve ser feita quando se avalia o membro radiograficamente, levando mais uma vez em consideração que a angulação casco : quartela é diferente para o torácico e o pélvico (foto 2).


                                          

FOTO 1                                                                                        FOTO 2

As fotos 3 e 4, representam um cavalo com alteração severa da suspensão do membro torácico direito (foto 3) e esquerdo (foto 4). Observa-se a angulação positiva da relação casco : quartela com a queda do boleto nos dois casos. Com foco na foto 4, se observa a representação biomecânica do porque um membro com esta alteração, adapta esta posição; a biomecânica da suspensão basicamente se caracteriza em 4 passos que começam com a flexão da articulação interfalangiana distal na fase cranial de extensão do membro (1),  que produz relaxamento do tendão flexor digital profundo (2), e que por sua vez, reduz o apoio do mesmo no “scutum proximal” ou ligamento palmar dos sesamóides no boleto (3); esta mudança na redução da tensão do tendão flexor digital profundo sobre a superfície palmar do boleto, permite que a queda do mesmo, influencie na angulação casco : quartela e que termine em extensão da articulação metacarpo/tarso falangiana (queda do boleto); este mecanismo aumentara contundentemente o estresse no tendão flexor digital superficial e no ligamento suspensório do boleto (se o boleto cai, caem também os sesamoideos proximais e o ligamento suspensório do boleto se hiperestende com extensão paralela no tendão flexor digital superficial).


                      

FOTO 3                                                                                FOTO 4

Em cavalos sem lesão primaria das estruturas da suspensão, mas que tenham esta falha no aprumo, sempre terá um estresse maior no ligamento suspensório e no tendão flexor digital superficial. Cabe notar que este é um princípio extremamente importante a ser compreendido no uso de ferraduras terapêuticas, que mudem a mecânica de extensão ou flexão da articulação interfalangiana distal e que tenham uma influência direta na elevação ou redução da posição do boleto. Ou seja, ferraduras que estendem a articulação interfalangiana distal, são indicadas para as desmites do ligamento suspensório do boleto e tendinite do flexor digital superficial; já ferraduras que flexionam esta articulação, são indicadas para tendinite do flexor profundo ou alteração do aparelho podotroclear, no momento em que o casco tem o impacto no chão.

Seguindo este princípio de biomecânica, é possível observar na foto 5, uma égua cujo diagnóstico foi uma degeneração severa e progressiva do ligamento suspensório do boleto na sua origem no membro pélvico direito; neste caso, o boleto (A) não só é mais baixo do que o B, como também a angulação da quartela é mais positiva (A) do que do membro contralateral (B). Este mesmo princípio é observado no cavalo da foto 6, com diagnóstico de desmopatia do ramo lateral do ligamento suspensório do boleto (b) do membro pélvico direito.


                        

FOTO 5                                                                                                                                        FOTO 6

Depois de realizar a inspeção estática da suspensão, é pertinente avalia-la dinamicamente. É provável que seja mais clara quando observamos o cavalo ao passo e em linha reta. Um exemplo é a foto 7, que representa uma potra com diagnóstico de luxação lateral da calota do tendão flexor digital superficial, por ruptura da inserção medial do mesmo no osso calcâneo (seta vermelha). Como o flexor digital superficial, também participa nas estruturas da suspensão, é possível observar que o boleto B, tem menos distância do chão em comparação do A (membro normal). Outra interessante observação clinica neste caso, foi comparar como a fase caudal do membro afetado estava aumentada (B), pela falta do suporte da calota do flexor digital superficial na superfície plantar do osso calcâneo.


FOTO 7

Para finalizar, lembre sempre que: 1- antes de flexionar, bloquear, infiltrar, radiografar, fazer ultrassom e etc, se faz necessário entender as formas de comunicação que a anatomia e a biomecânica expressam, para tentar direcionar o exame clínico e encontrar com precisão o problema. 2- quando detecte uma alteração de suspensão, foque-se inicialmente nas três estruturas de suspensão, pois o problema do cavalo pode estar ali. 3- nao eleve o talão sem saber como funciona a biomecânica, pois elas sobrecarregam o ligamento suspensório do boleto e o tendão flexor digital superficial.

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