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Conheça a relação entre a biomecânica de recepção do membro torácico e/ou pélvico com a degeneração articular

  • 07
  • MAR
Conheça a relação entre a biomecânica de recepção do membro torácico e/ou pélvico com a degeneração articular

A biomecânica do membro distal (torácico ou pélvico) é um conjunto de forças que trabalham conjuntamente de uma forma maravilhosa. O foco deste mês é tentar entender que estruturas trabalham sinergicamente para reduzir o impacto na fase de recepção, e o que acontece na articulação do boleto quando elas falham. Na biomecânica de movimento, são conhecidas três principais fases: 1) recepção, 2) ponto de intersecção ou ponto neutro e 3) propulsão (FOTO 1). Por outro lado, tendões e ligamentos distribuídos desde a região do metacarpo possuem funções específicas e estas são provenientes da estrutura onde elas se originam e onde elas se inserem.


FOTO 1:Representação gráfica das três fases de Biomecânica; Fase 1 ou de recepção, fase 2 ou neutral e fase 3 ou de propulsão.

Biomecânica do dígito

Na Biomecânica citada acima, vamos focalizar a fase de “recepção” (fase 1), onde se destacam anatômica e biomecanicamente o tendão flexor digital superficial, o ligamento suspensório do boleto (origem, corpo e ramos dorsais de extensão e ramos de inserção lateral e medial) e os ligamentos oblíquos dos sesamoideos proximais trabalhando de uma forma sinérgica. Estas estruturas citadas são os principais responsáveis por sustentar o peso do cavalo no momento do impacto. As outras estruturas não citadas, atuam principalmente nas outras fases “intermediaria” e/ou na fase de “propulsão” no movimento. Na FOTO 2, se representa como na fase de recepção ou no momento em que o membro do cavalo chega no chão, existe uma hiperflexão da articulação interfalangiana distal e proximal, com uma extensão importante na articulação do boleto no mesmo momento. Se lembramos da anatomia associada à biomecânica, o tendão flexor digital superficial (não esta representado na figura da foto 2), tem uma tensão exagerada no instante em que o boleto desce em sentido ao chão. Neste mesmo instante, os sesamoideos proximais se deslocam em sentido distal, quando são tracionados ventralmente pelos ligamentos sesamoideos oblíquos (LSO) em contra pressão com o ligamento suspensório (LSB) do boleto e seus ramos lateral (RL.LSB) e medial (RM.LSB). Ou seja, graças aos ossos sesamoideos distais em conjunto com o ligamento suspensório do boleto e os ligamentos oblíquos dos sesamoideos, o boleto não teria mais uma hiperextensão maior da que já estaria tendo no momento do impacto em condições normais.


FOTO 2: Representação gráfica da fase de recepção após um salto. Observe uma hiperflexão da articulação interfalangiana distal e proximal (setas azuis) e uma hiperextensão da articulação do boleto (seta amarela). Os ligamentos oblíquos dos sesamoideos (LOS), ramo dorsal do ligamento suspensório do boleto (RD.LSB) e ramos lateral (RL.LSB) e medial do LSB são altamente estressados neste momento.


Consequências da falha na suspensão na articulação do boleto

No próprio exame clínico, podemos notar alterações na suspensão na inspeção estática como já teria sido comentado numa das publicações desta coluna. Queda do boleto (foto 3 A e B), ângulo positivo casco quartela (foto 3 A e B) e tensão dos ramos dorsais do ligamento suspensório do boleto (foto 3 A e C) se destacam como sinais clínicos de alteração na suspensão na inspeção estática. O problema grave destes cavalos será a redução da capacidade para amortecer o impacto e terão uma consequência extremamente importante na articulação do boleto. Na figura 3 D, também é visível como na recepção do membro no chão, normalmente existe uma migração da primeira falange em sentido dorsal ao mesmo momento que o metacarpo se direciona distalmente, literalmente o boleto encostando no chão. Na foto 4, se representa o momento do trauma direto entre a borda proximal da primeira falange contra a superfície dorsal do metacarpo. Este impacto, geralmente termina em remodelações e proliferações ósseas, engrossamento da cápsula ou até microfraturas de cartilagem da superfície dorsal da falange proximal ou do metacarpo; este é o resultado final quando se tem irregularidade no aparelho de suspensão.


FOTO 3: Representação gráfica dos pontos a considerar na inspeção estática de cavalos que podem chegar a ter alterações de suspensão (A, B, C); momento de recepção onde o cavalo encosta o boleto no chão (D).


FOTO 4: Representação gráfica do momento em que a falange proximal se desloca dorsalmente no momento da recepção, o que gera um impacto direto entre ela e o 3o metacarpiano (círculo vermelho).


Interferência dos talões

Cavalos com talões maiores terão um estresse maior do que cavalos com talões menores. É por isso, que cada fase tem uma interpretação diferente. É interessante observar como cavalos achinelados, com pinça longa e talões baixos, tem maior estresse no tendão flexor digital superficial na fase de propulsão, em comparação de cavalos com talões altos na fase de recepção. Esta altura do talão aumentará mais a hiperflexão da articulação interfalangiana distal e proximal, permitindo mais o relaxamento do tendão flexor profundo, o que permite mais ainda a queda do boleto no chão. Esta queda exagerada permitirá um impacto direto entre a primeira falange e o metacarpo dorsalmente como citado acima. A consequência progressiva destes cavalos será sinovite, engrossamento da plica sinovial, capsulite, fragmentação ou fraturas e logicamente degeneração articular.


Diagnóstico por imagem

Casos clínicos como este, podem ser analisados desde o momento da inspeção estática, levando em consideração o que acontece na inspeção dinâmica. Nestes cavalos, a avaliação detalhada por imagem radiográfica e ultrassonográfica nesta região, deve ser levada muito em consideração. Vistas radiográficas latero mediais e levemente oblíquas, podem mostrar áreas de redução de densidade na superfície dorso cranial da primeira falange (foto 5B e 5C) quando comparadas com radiografias normais (foto 5A), assim como fragmentações e fraturas claras no metacarpo e na primeira falange quando analisadas vistas longitudinais com uma boa máquina de ultra-som (foto 6B). Casos mais severos, podem aparecer com lise de osso subcondral mesmo mantendo a linha superficial da cartilagem articular (foto 6C) ou áreas com fragmentos maiores que indicam indiscutivelmente a remoção cirúrgica (foto 5D).



FOTO 5: Representação gráfica comparativa entre um raio x normal de uma vista latero medial de um boleto (A), e outros raio x com fragmentação da falange proximal (note-se a radiolucência da borda dorso-proximal da falange proximal na foto B), fragmentação do metacarpo (C) e fratura articular na mesma região (D), como consequência do impacto do membro com o chão na fase de recepção.



FOTO 6: Representação gráfica da ultrassonografia (B e C) do mesmo cavalo que aparece na radiografia da foto 5C numa foto invertida. Note-se o grau de detalhe que a ultrassonografia determina na avaliação da superfície óssea e articular deste cavalo (B e C). Na avaliação dinâmica, e possível destacar o grau de lesão de osso subcondral, profundidade e integridade ou não da cartilagem. Cabe destacar que a ultrassonografia é o método por imagem mais sensível para avaliar superfície articular.

Finalmente devemos lembrar que cavalos com talões altos, sofrerão diretamente no aparelho de suspensão principalmente na fase de recepção. E que cavalos já com alteração de suspensão, são compatíveis com lesões primárias no tendão flexor digital superficial, ligamentos oblíquos dos sesamoideos ou todo o aparelho suspensório do boleto, levando também a ter uma biomecânica alterada que rapidamente pode terminar na degeneração da articulação do boleto.

Obs: Todas as fotos e imagens foram montadas e adaptadas pelo Autor.






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