Conhecendo a Fíbula

Por Dr. Jairo Jaramillo Cárdenas /

Uma das articulações mais importantes do cavalo é a mal citada articulação da “patela”, pois ela é em realidade a articulação femorotibiopatelar e não a patelar;

Uma das articulações mais importantes do cavalo é a mal citada articulação da “patela”, pois ela é em realidade a articulação femorotibiopatelar e não a patelar; a anatomia tradicional cita que esta região possui 3 ossos (fêmur, tíbia e rótula), 3 articulações (femorotibial medial, femorotibial lateral e femoro patelar), e 14 ligamentos; por outro lado, a maioria dos livros se esquecem da “fíbula”, embora não tenha envolvimento articular com a femorotibipatelar, acaba sendo um pequeno osso acessório que não só acompanha lateralmente a tíbia como que participa de forma importante na biomecânica da articulação citada anteriormente. Estou convencido de que mesmo estruturas pequenas ou que se desenvolvem menos em algumas espécies (como o cavalo), elas também tem a sua importante função. Nesta edição, daremos um merecido valor ao pequeno osso, chamado de “fíbula” na nossa espécie equina.
A fíbula (figura 1), também conhecida como perônio, tem aproximadamente entre 8 a 15 centímetros, sendo distribuída desde a região próximo a lateral da tíbia até a metade da mesma. Ela possui uma sindesmose (união de dois ossos através de um ligamento) ou ligamento interósseo (figura 1 - seta amarela), além de uma linha epifisária que comumente se confunde radiograficamente com um fratura (figura 1 - seta azul).

A fíbula por incrível que pareça, possui 3 funções fundamentais que discutiremos nesta coluna. Por um lado, o alinhamento entre o fêmur e a tíbia não é totalmente parale-
lo; os côndilos femorais estão posicionados levemente em sentido cranial enquanto a tíbia levemente para caudal (figura 2). Esta distribuição óssea tem a função biomecânica de manter o espaço articular entre o fêmur e a tíbia durante a fase de flexão e extensão femorotibial. Durante a flexão articular (figura 3B), o menisco lateral se desloca caudalmente sobre o platô lateral da tíbia; neste momento o ligamento colateral lateral femorotibial, se posiciona mais vertical em relação a fase de extensão (figura 3A).
Em outras palavras, o ligamento colateral lateral adota uma posição vertical (flexão - figura 3B, seta vermelha) e horizontal (extensão - figura 3A, seta amarela), dependendo do grau de movimento da articulação femorotibial. Nesse mesmo momento as trócleas femorais sobem e os côndilos se destacam cranialmente (figura 3B). Se não fosse pelo ligamento colateral e a sua distribuição oblíqua (Figura 2 e 3), o côndilo femoral, se afastaria do platô da tíbia, terminando em luxação articular ou fratura do menisco.
Logicamente, os ligamentos cruzados e o tendão do músculo poplíteo, atuam sinergicamente com o ligamento colateral lateral femorotibial. Se não fosse pela fíbula, o ligamento colateral lateral entre o fêmur e a tíbia não poderia exercer a sua função, já que a porção distal deste ligamento se insere na superfície próximo lateral da fíbula (Figura 2, 3A, e 3B). Uma fratura proximal da fíbula, terminaria num desastre biomecânico relacionado a uma importante instabilidade da articulação femorotibial lateral.

Uma avaliação completa tanto da fíbula quanto dos tecidos moles podem ser muito bem destacadas pela radiografia (figura 4) e ultrassonografia (Figura 5).
Uma das fraturas de prognóstico mais difícil em termos de reparo e principalmente circulatório é a fratura da tíbia (Figura 6B). Para quem tem vivenciado um exame físico de um cavalo com fratura da tíbia proximal, não é raro perceber um hematoma gigante em volta da musculatura de extensão do membro pélvico. Na superfície lateral da tíbia, não só temos importantes músculos extensores como um plexo vascular que drena todo o fluxo sanguíneo venoso do membro pélvico distal (Figura 6A). Este plexo venoso que está localizado numa posição intermuscular, entre os músculos extensor digital lateral e extensor digital longo. Conhecendo o grau de tensão que esses músculos fazem em conjunto na fase biomecânica final de elevação (protração) imediatamente antes da fase de apoio associados com a tensão do músculo tensor da fáscia lata, seria inevitável o colapso deste plexo, terminando em edema e retorno do fluxo sanguíneo venoso para a veia cava caudal.
A fíbula está distribuída estrategicamente, pois ela não só estabiliza a origem do músculo extensor digital lateral, como também evita o colapso do plexo tanto por compressão
externa, mas principalmente no momento da contração muscular.
Como podemos ver nesta coluna, a esquecida fíbula, possui funções biomecânicas na estabilidade articular femorotibial lateral, participa na biomecânica do deslocamento caudal do menisco lateral e evita o afastamento articular por receber o ligamento colateral lateral femorotibial; por outro lado a sua função protetora vascular, evita o colapso do plexo tibial lateral, além de estabilizar a saída do músculo extensor digital lateral, uma das estruturas importantes na fase de extensão do dígito.






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