Infiltrações de neurolíticos da Coluna Toraco-lombar (TL)

Por Dr. Jairo Jaramillo Cárdenas / 06/01/2019 /

Neste artigo, Dr. Jairo Cárdenas fala sobre as infiltrações profundas de neurolíticos da coluna toracolombar e pélvica e suas contra-indicações como tratamento em cavalos de esporte.

Você sabia que as infiltrações profundas de neurolíticos na região da coluna toracolombar e pélvica são “contraindicadas” como tratamento da “Dor de dorso” em cavalos de esporte?

Uma prática bastante comum do dia a dia nos cavalos de esporte, é a aplicação de neurolíticos regionais ou intramusculares na região da coluna toraco-lombar (músculo eretor espinhal), para reduzir a famosa “Dor do dorso”. Por outro lado, é também muito comum, a falta de conhecimento em áreas como a anatomia da região dorsal superficial e profunda, a biomecânica da coluna, a fisiologia e distribuição muscular, estrutura óssea, inervação e a vascularização, além do conhecimento no uso de métodos diagnósticos que auxiliam na escolha de um protocolo que realmente “trate” o problema e que seja no local onde ele se encontra. Um exemplo é a Desmite do ligamento supraespinhoso, que pode ser tratada com ondas de choque ou “Shock Wave” (SW) no local da dor e inflamação, ou o “kisses spines”, por exemplo, onde associado ao SW, pode também ser tratado com fármacos sistêmicos intravenosos como o ácido Tiludrônico, que reduz a lise óssea com consequente redução da dor. A osteoartrite dos processos articulares dorsais TL, podem ser injetados com infiltrações guiadas por ultrassonografia usando corticoides de curta e média ação nas regiões degeneradas, além de um manejo sistêmico e regional da dor (anti-inflamatórios não esteroidais, acupuntura, mesoterapia, etc). Já as infiltrações cegas de neurolíticos, são uma prática arriscada e sem benefícios lógicos para o cavalo. Mas porque?

1) As infiltrações cegas e profundas (sem ser guiada por ultrassom) na região da coluna toracolombar, podem atingir estruturas vulneráveis como o músculo “multifidus”, que possui seu nome proveniente do Latin “multi” = várias, “fidus”= fibras fusionadas por várias aponeuroses. As várias aponeuroses do músculo multifidus, tem a função de receber uma inervação específica com fibras de função proprioceptiva, que tem a função de corrigir posturas inadequadas da coluna ou permitir ao cavalo amortecer movimentos exagerados durante atividades esportivas para evitar inclusive lesões. O multifidus é um músculo de correção postural mais que a sua função como extensor da coluna TL. As infiltrações com neurolíticos indiscriminados anulam a inervação defensiva do músculo multifidus, o que impediria ao cavalo saber a sua própria forma de correção postural da coluna toracolombar. Este músculo também está presente e com a mesma função na região do pescoço em volta das sete vértebras cervicais.

2) As infiltrações cegas e profundas (sem ser guiadas por ultrassom) podem atingir o canal medular ou o forame intervertebral, o que acabaria bloqueando a inervação do segmento injetado para a região caudal. Esta complicação terminaria numa fatalidade como em fraturas de alguma região dos membros pélvicos por quedas ou ataxia, após ser injetado um fármaco que bloqueia a transmissão do impulso nervoso no canal vertebral.

3) As infiltrações cegas e superficiais da coluna, como por exemplo, no músculo longuíssimo do dorso (parte do músculo eretor espinhal), teriam uma absorção rápida do neurolítico pelo próprio músculo, como ocorreria em qualquer outro grupo muscular; além disso, não teriam um efeito sistêmico pertinente, como também não tem uma indicação por esta via a partir do próprio fabricante.

4) As dores de origem muscular na dor de dorso em cavalos, geralmente são uma resposta a um processo patológico ósseo e/ ou ligamentar primário; Elas também podem ser dadas por mudanças de posição abrupta durante um esforço físico, trauma direto (sela ou proteção da mesma) ou miopatias por exercício; entretanto, outros grupos musculares são muito mais atingidos nas miopatias por esforço, como o glúteo médio (função de extensão da coluna e da garupa além da propulsão do membro pélvico), glúteo femoral ou o quadríceps femoral; neste caso, nenhuma destas patologias combinaria com o uso de neurolíticos intramusculares pois o tratamento das miopatias é totalmente diferente.

5) O uso de neurolíticos pode ser indicado em áreas onde a dor é focalizada e que anatomicamente não teriam proximidade com uma estrutura anatômica vulnerável. Exemplo disso é o atrito ósseo produzido pelos processos espinhais das vértebras da coluna TL, como no caso do “Kisses spines”. Aqui a dor é proveniente do local da inflamação e osteólise por atrito mecânico dos processos espinhosos em contato, além do estresse que o ligamento supraespinhoso pode sofrer neste local. Infiltrações pequenas de neurolítico associadas com corticoides nesta região, não tratam o problema mas pelo menos podem reduzir a transmissão da dor a partir deste local. Um bom estudo da anatomia e biomecânica da coluna, excelente exame clínico desenvolvendo a sensibilidade na inspeção, uma interpretação adequada dos testes reflexos da coluna, um conhecimento do histórico de performance do cavalo, destreza na técnica escolhida como diagnóstico para cada caso é uma interpretação pertinente dos métodos diagnósticos disponíveis, fazem com que possa ser dado um diagnóstico mais preciso ou bastante próximo da realidade clínica e atlética de cada cavalo. Isto vai gerar a escolha do melhor tratamento sem complicações colaterais ou situações fatais.
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